sábado, julho 31, 2004

Água e lodo

Uma dor aguda em sua mão, mas ela nada vê. Segurando a faca, ela tenta se concentrar, mas de novo a dor e desta vez ela percebe: respingos de água fervente atingem sua mão. Mas de onde isso vem? Ela grita de dor e de susto e deixa cair a faca. Na noite anterior ela tinha acordado em um quarto diferente, a sala de um palácio, com as paredes cobertas de pequenos detalhes. Forçando os olhos para enxergar no escuro, ela viu silhuetas de plantas e deslizou suas mãos por uma almofada de veludo. Sentiu quem esteve ali. Sentiu as alegrias de um momento passado, e a dor de outros momentos, para sempre registrados ali. Deitou-se no chão de mármore coberto pelo caríssimo tapete persa e tentou entender, enquanto ouvia as vozes de quem esteve ali. Neste momento, uma mulher a qual ela não pôde ver pisou em suas costas, puxando-a pelos cabelos. "Hora de voltar à realidade, sua puta!" E começou a puxá-la, rasgá-la para fora do lindo cenário do quarto decorado e levando-a de volta ao seu quarto cinza e úmido. Ela fincou suas unhas no tapete, tentando arrastar-se para baixo da cama, enquanto a outra a puxava pelos calcanhares. E de volta ao presente, olhando para a faca no chão e tocando a pele atingida pela água fervente, ela lembra disso e chora. Por que ela não consegue fugir disso? Por mais feliz que esteja, algo sombrio a cerca e ela não sabe o que é. Às vezes é aquela mulher sem face, às vezes são as outras pessoas. E sua própria face, ela agora percebe, é apenas emprestada, mas não é sua verdadeira face! Ela olha para dentro de si tentando buscar no passado uma verdade sobre si mesma, algo que o tempo e os outros conseguiram cobrir de lodo e raízes mortas. Mas uma raiz forte e firme continua viva, lá no fundo, tão fundo que é difícil encontrá-la. Ela segura-a com força e chora, pois ela vê que esta raiz está em outro mundo, outra realidade, uma que ela não pode atingir. E tudo o que ela pode fazer é contentar-se em manter a consciência desta realidade dentro de si mesma. Ela chora ainda mais, pois ela sabe que se quiser seguir esta raiz, ela terá que se desfazer de tudo o que ela é e tem. Mas tudo o que ela tem e que faz sentido é essa realidade oculta que não pode manifestar-se materialmente no presente. Ela faz uma escolha. A raiz. E então ela se vê peregrinando ao lugar de formação, onde as fantasias são concebidas, onde elas nascem e morrem, onde um dia ela mesma morreu e aonde agora volta para completar o ciclo. Ela anda pelas águas razas, sempre em frente. É noite e não há pessoas ao redor. Sua companhia é o som de seus passos na água. Não precisa andar muito: quando a água está na altura dos seus joelhos, ela deita-se no lago de rosto para baixo e não mais levanta. Suas mãos enterram-se no lodo do lago e encontram a raiz. Segura firme. Respira fundo. Não mais levanta.

4 Comments:

Blogger Rodrigo said...

Gostei muito!!
a referência psicanalítica foi proposital ou eu é que sou chato e vejo psicanálise em tudo ?
ao escolher a raiz, em detrimento de sua realidade, psicotizou, esta moça do conto ?

dom. ago. 01, 12:28:00 PM  
Blogger Andrea said...

Olá voodooslut! E obrigada pelo comentário. Diferentemente de vocês, eu não estudo psicologia, tenho um conhecimento superficial jungiano, portanto não sei responder à sua pergunta. Como assim "psicotizou"? Sim, a raiz tem um significado. Na verdade a raiz se manifesta muito em meus sonhos: sonho que estou desenterrando minhas raízes, ou cavando buracos e encontrando ossos. Tem a ver com passado, com o núcleo do meu ser; eu sempre tento ver além da persona. E quando escrevi que ela agora percebe que sua face não é a sua face, mas é emprestada, estou falando disso, de mim mesma. Entende? Esta não sou eu, esta que vejo no espelho e que os outros vêem na rua, no meu trabalho, etc. Não sou eu. Apenas uma face emprestada. Fox Mulder do Arquivo X diria que a verdade está lá fora, e eu digo: a verdade está lá dentro. E quanto ao modo como a garota do conto decide seguir a raiz, bem... é uma coisa pessoal. Que uma vez pensei em fazer. Eu estaria muito interessada em saber como vocês interpretariam psicologicamente este conto.

dom. ago. 01, 01:23:00 PM  
Blogger Rodrigo said...

É que a psicanálise tem esse lance de conhecimento sobre si, de conteúdos que determinam o comportamento, mas que não podem ser atingidos. Muito a ver com isso que você falou de núcleo do ser. Conteúdos inomináveis, não falados, porque a própria linguagem não abarca. Por isso são referidos apenas como "isto", a "coisa" (id).
E, dependendo da leitura que se faça, o acesso a esses conteúdos é a psicose, a perda da realidade de si e do mundo, ou loucura. É difícil falar sobre esse ponto específico sem discorrer sobre toda a teoria psicanalítica ad nauseum. Por isso minha explicação fica com essa cara mística ou meio "viajada", quase religiosa. Mas é um conhecimento bastante sólido, apesar de não ter bases positivistas como as ciências.
Mas, de qualquer forma, isto que escrevi não é uma interpretação psicanalítica, porque isso não existe fora do ambiente clínico. É sempre o próprio sujeito que significa seus conteúdos. Eu apenas achei que seu conto podia ser uma alegoria para o conhecimento psicanalítico, como diversas produções artísticas podem o ser. E gostei dele. :)

dom. ago. 01, 11:27:00 PM  
Blogger Andrea said...

Entendi. Obrigada pela explicacão. Interessante que tentar acessar justamente esses conteúdos mais profundos do ser possa ser interpretado como a perda da realidade de si, quando na verdade a pessoa pode estar acessando outra realidade, uma talvez até mais verdadeira. Só que por ser interamente subjetiva e pessoal, não pode ser compreendida pelos outros. Depois da sua explicacão e relendo o conto, entendo como ele parece mesmo uma analogia à isso (psicanálise).

seg. ago. 02, 04:18:00 AM  

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