Mãos Atadas
Maciez das plumas dentro do travesseiro, sentidas de forma indistinta pelas pontas de seus dedos. Seu rosto de encontro ao travesseiro, os braços esticando-se em direção à cabeceira da cama. Dedos percorrem suas costas. Arrepio. Outrora haviam sido os pássaros lá fora, pardais entretidos em um duelo, o silêncio cortado pelos piados de dor do vencido. Mas agora os únicos sons são aqueles mais próximos. A respiração junto ao seu ouvido. O riso cúmplice e mal intencionado acompanhando o peso sobre suas costas. Vira o rosto de lado e sorri.
Som das plumas movendo-se dentro do travesseiro, e memórias do passado vem-lhe à cabeça. Domingo no jardim em frente à casa, a porta do vizinho aberta, as escadas levando ao sótão. Um travesseiro de plumas? Afasta a lembrança.
Mãos apertadas firmemente em torno das barras da cabeceira da cama.
Uma voz lhe chamando ao longe, no passado, em um dia ensolarado. Estivera há muito tempo no escuro e a voz viera chamar-lhe, o seu amor, vindo, procurando-lhe.
Um suspiro no seu ouvido, algo incompreensível murmurado com prazer. Movimento sobre suas costas, as duas mãos esticadas junto às suas. Fecha os olhos. Toque em torno de seu pulso direito, envolvido suavemente. Um aperto mais firme e um laço em torno do outro pulso, uma mão trazida de encontro à outra. Abre os olhos e vê a corda passada por entre as barras da cabeceira.
A lembrança teima em voltar e mais uma vez está lá no escuro, ouvindo os passos de seu amor à sua procura, a inocência estampada na doce voz que repete seu nome, na ternura com que aproxima-se. Tenta fugir da lembrança voltando sua atenção ao riso lascivo junto a seu pescoço e ao toque excitado entre suas nádegas. Concentra-se no som produzido pelas plumas dentro do travesseiro cada vez que move sua cabeça.
Mas o som das plumas faz lembrar do passado. Era sim, um travesseiro de plumas, no quarto escuro, anos atrás. Ouve novamente os passos, em sua mente, e começa a debater-se tentando desatar os pulsos. Puxa os braços em desespero, apenas deixando os nós ainda mais apertados. Não quer estar ali, não quer reviver o momento. Seu amor aproximando-se, inocência pura. Um gemido escapa de seus lábios mas sua companhia o interpreta de forma errada, como um gemido convidativo de prazer, e continua. Os olhos fechados enquanto debate-se tentando desatar os nós.
E lá fora, sob a janela, os pardais reiniciam o duelo. Mesclam-se sons e imagens, passado e presente. Uma gota de suor cai sobre sua face ao mesmo tempo em que uma lágrima lhe escapa. Os corpos movem-se juntos em sincronia, os lábios tocando sua orelha, as peles transpirando. Mas em sua mente, tenta perder-se, tenta esconder-se da visão que está por vir, quando os passos estão mais próximos. A voz de seu amor se sobrepõe à dos pássaros e aos gemidos, a voz que repetia seu nome subtamente emudecida pelo choque do inesperado! Muito tarde para voltar atrás. A sombra amada correndo pelo corredor e escada abaixo, muito tarde para balbuciar explicações. E novamente os gritos do pardal vencido debatendo-se no chão sob os outros pardais, enquanto na cama debate-se sob o corpo da sua companhia, os pulsos firmemente atados, o orgasmo iminente. O momento exasperado chega em toda sua fúria e os corpos retesam-se juntos, em êxtase. Sons incoerentes escapam de ambas as bocas. Um pardal morre lá fora, ferida que reflete sua própria mágoa. Mágoa essa, que não quer mais lembrar...
postado anteriormente em meu blog "red wolf"

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