sexta-feira, agosto 20, 2004

EVASÃO

Durante uma caminhada muito cedo logo após o sol nascer, e ao passar por entre as árvores de um pomar só recentemente descoberto, uma maçã cai ainda verde a seus pés. Ele assusta-se com a surpresa, dá um pulo para trás, mas não tem como ignorar a maçã. Pega-a na mão, examina-a, sabe que está verde e teme passar mal se a comesse, porém resolve guardá-la na mochila às suas costas e continuar o passeio como se nada tivesse acontecido. Logo ali adiante ele se depara com cerejeiras repletas de pequenos frutos e logo enche sua boca de cerejas, deliciando-se com elas e limpando o suco avermelhado no branco da sua camisa. Ao chegar em casa ele deixa a maçã sobre a geladeira. Pensa que irá esquecê-la, mas todo dia ele olha para ela.

O tempo passa, e a maçã continua lá. Ela olha para ele mesmo quando ele não está pensando nela. Ele apazigua sua fome com tudo o que encontra na geladeira, e apesar da geladeira estar sempre cheia sua fome nunca passa. E a maçã lembra-o disso, vitoriosa. Ele a ignora.

O tempo passa, e a maçã muda de cor. Amadurece a cada dia. Ele não tem como ignorá-la, mas ele tenta. Ele a odeia! Ela ri dele, ri da sua fome, ri do seu medo. Ele não permite a si mesmo pousar os olhos sobre ela, mas ela continua soberana sobre a geladeira.

O tempo passa. Vermelha! Vermelha! Vermelha como um coração cheio de sangue prestes a explodir! Ele chora. Ela aguarda pacientemente.

E pela primeira vez o sol se move e a tarde chega, a luz é outra, as cores são outras, e a sombra dele estende-se comprida sobre a calçada da rua quando ele caminha. Seus passos que outrora ecoavam sozinhos agora tem o ritmo de uma passada feminina ao seu lado e sua vida completa-se assim como deveria, com vozes infantis e dois pares de olhos grandes voltados para cima para vê-lo melhor. Mas seu coração apesar de continuar o mesmo resolve se rebelar contra a sua vontade, fazendo-o sofrer. Nada mais poderá preencher o vazio que ele sente e a fome que o castiga.

E então chorando, ele entrega-se à maçã, morde-a com fúria, seus dentes cravando-se nela e arrancando pedaços suculentos da fruta que já sangrava de tão madura. Suas veias enchem-se de vida, mas não é o suficiente. Ele sai em busca de maçãs, mais e mais maçãs, as maçãs mais vermelhas que pode encontrar. E então já não basta e ele quer outras, desta vez grandes, desta vez pequenas, desta vez doces, desta vez amargas. Seus passos não são mais ouvidos por onde ele outrora andara, pois ele está agora eternamente em busca das maçãs. A fome reprimida por tantos tempos ameaça virar obsessão. Não há limites para essa busca amargurada e agora completamente sozinho ele cerca-se de maçãs.

E contudo, ele chora, chora pelos tempos perdidos, os tempos de fuga, medo e negação. Chora pela juventude perdida e pelo gosto que já não é mais o mesmo. Da maçã sobre a geladeira resta um pedaço que olha para ele, a casca vermelha e o resto amarronzado. Ele chora.

O sol já está se pondo quando ele se apressa para o pomar do passado, o pomar onde ele encontrara a maçã. Mas esse pomar não é mais dele. O vento bate forte em suas costas como se tentasse em vão varrê-lo para longe. E então parado onde ele antes estivera há muito tempo atrás, vê uma maçã verde e dura, ainda pequena, pairando num galho diretamente acima de sua cabeça. Ele afasta os cabelos e sorri, puxando a fruta para si. O galho não cede. Ele puxa com força, puxa com violência, machuca suas mãos, suas unhas rasgam a casca da fruta. Com fúria ele a puxa até consegui-la para si; e com a maçã muito verde em suas mãos, ele a morde com sofreguidão. Ó implacável obsessão! A casca cede teimosa entre seus dentes, o gosto de dor e amargura em sua boca misturam-se ao gosto ferruginoso de sangue, o qual escorre por seus lábios manchando sua camisa outrora branca. O sol se põe cobrindo com sombras e escuridão o corpo velho e vazio, acolhendo-o com folhas, galhos, raízes. Ele desaparece sob as raizes das macieiras, tudo o que jamais fora, pensara ou sentira, sob as raízes das macieiras. Mas, das sementes novas árvores, e o sol novamente completa seu ciclo e o dia de amanhã virá para alguém que porventura passar pelo pomar...