segunda-feira, agosto 09, 2004

me passa a salada

Do meio de minha ruína observo, em um misto de nervosismo e melancolia, o grande castelo de cartas que construímos e no qual reinamos, a despeito de sua fragilidade e impermanência. O vazio ideológico e moral que toma conta de nossas vidas; um joguete em busca de um objetivo vago, indefinido talvez, em que o vencedor, do alto de sua glória e em seu reinado absoluto como detentor de valores, pode gritar aos seus seguidores: Cortem a cabeça dele! Cortem a cabeça dele! - E cabeças são cortadas e os corpos entregues para que criaturas chafurdem. Pelo menos até o próximo surgimento de um novo vencedor, com outras cartas e outras cabeças.
Do meio de minha própria ruína - apenas um corpo sujo, minha cabeça já foi cortada e não sei de seu destino - suplico. Minha súplica não se dirige ao rei, que julgo não ter qualquer resposta a me oferecer, agora que não tenho cabeça; não se dirige também aos céus, meu cinismo quase nihilista me impede de ações deste tipo. Minha súplica, quase um grito de dor - de fato seria um grito de dor se gritos de dores não fossem tão cafonas e não atraíssem legiões de doloridos dispostos a gritar em coro, condolência é a última coisa que preciso - enfim, a pergunta, que dirijo somente a mim e a minha decadência, por falta de um alvo mais adequado, me sai como um grito, um chamado, um uivo. Escalo minha própria ruína, entrelaçada e misturada às ruínas dos sonhos, dos valores, do mundo; me desvio de alguns pedaços podres de tecido vagabundo, chuto uma ou outra carcaça e, chegando ao ponto mais alto grito, olhando para baixo: O que importa ? O que diabos importa ?
A única resposta que ouço são os ecos.