sábado, agosto 14, 2004

VISITA NOTURNA


Sob meu corpo jaz inerte
espírito mergulhado em tranquilidade
e entregue a meu peso
        Mórbido silêncio e a certeza
        das minhas unhas em sua faringe
        de não mais poder escapar ileso

E as mãos por suas costas,
em invasão desafiante e irreversível,
sabem não lhes ser permitido
        Mas continuam insistentes
        ameaçando fazer tudo o que outrora
        jamais havia cometido

Unhas como lâminas afiadas
e ele sabe que as mãos que assassinam
são as mesmas que o afagam
        Em posição vulnerável
        submete-se à vontade alheia,
        às mãos que a luz apagam

Fecha os olhos e sente
o contato que possue e domina
pelas suas costas correm palmas
        Já não apenas duas
        e nem quatro, mas agora seis
        submisso a tantas almas

Fecha os olhos e não resiste
entregue passivamente ao contato
permitindo todas três
        E nós rimos embriagadas
        disputando entre nós o indefeso humano
        roubado de sua lucidez

Primeiro ela, e depois eu
beijos molhados de sangue à todas
disputamos de sua paixão
        Jugular aberta aos sonhos
        em nossos braços o humano entregue
        esvaindo-se em escuridão

por Laudanum Nociva, 14 de agosto de 2004.