quarta-feira, setembro 01, 2004

A Aranha Andrógina de Helsinki


O ônibus está para partir quando olho pela janela e eu vejo... Criatura muito alta de compleição pálida, corpo esguio, pernas longas e muito finas como o de uma aranha que movimenta-se vagarosamente pelos fios de sua teia equilibrando seu corpo lá em cima, tal qual um tripô de apoio à uma câmera. Pernas finas e longas. Sim, como uma aranha. Desliza com a suavidade de um inseto, algo que se esgueiraria pela penumbra da noite deixando uma sombra longa e pavorosa para os poucos que porventura lhe deitassem os olhos! O casaco preto oculta seu corpo delgado. Cabelos castanho-avermelhados. Vira a cabeça para o lado e um calafrio percorre-me a espinha. É simplesmente sinistra a maneira como se move, a vagarosidade dos movimentos bem calculados. É como uma dança. Algo macabro. Segue em frente e de repente é como se a rua e tudo ao seu redor houvessem desaparecido e como fundo existisse apenas uma luz muito, muito forte, como a luz que seria causada pela explosão de uma bomba atômica. A luz intensa vem por trás do ser esguio e seu corpo fino e comprido torna-se apenas um fio, uma linha negra provida de braços e pernas ou talvez apenas filamentos ou algo sugerindo membros, apenas essa linha negra visível por entre os raios fortes dessa luz que nos cega. E sinistra, a criatura continua seguindo em frente, só que o tempo parece ter parado para mim e eu a vejo em câmera lenta. Pele e osso, a figura esguia, a cabeça equilibrando-se no topo do corpo esquálido. Duas chamas projetam-se das cavidades oculares em seu crâneo. Vermelhas como o cabelo. Ou talvez seja um efeito da luz atômica, a luz que por um momento pareceu engolir a cidade e todas as pessoas a seu redor, exceto por ela, a figura bizarra e esguia, a aranha noturna transportada para as seis horas da tarde em pleno centro de Helsinki. Não consigo parar de olhar. Sigo seus movimentos com meus olhos, como que hipnotizada, horrorizada, apavorada e fascinada. Não sei se é um homem ou uma mulher, ou quem saiba um silfo andrógino, um espírito bondozo ou maligno das florestas. Mais alto do que todos os outros que por ele passam, o ser segue em frente, não podendo ocultar seu mistério disconcertante do mundo que o cerca.

3 Comments:

Blogger Acidus said...

hum... acho que esta é como outra criatura que uma vez cruzou com meu caminho. Lembro dela pois por onde passava as flores murchavam.

qui. set. 02, 11:18:00 AM  
Blogger Acidus said...

hum... isto me lembra outra criatura que uma vez cruzou o meu caminho. lembro dela pois por onde passava as flores murchavam.

qui. set. 02, 11:19:00 AM  
Blogger Andrea said...

Olá Acidus! E seja você também muito mal-vinda às trevas que acercam este blog. As almas perdidas que nos cercam a recebem de braços (e garras) abertos! Não tenha receios em abrir sua alma aqui e mostrar sua podridão interior, até porque isso é um requisito nos Las Decaidras. Este é um espaço justamente para isso, para poesia, contos, filosofar sobre a vida e a morte, escrever sobre coisas sinistras, dividir um com o outro informações, ou apenas falar sobre coisas macabras. Fique à vontade para jogar um pouco do seu veneno aqui! Aproveite que as outras almas penadas estão muito quietas ultimamente (vai ver acharam algum cemitério novo para assombrar).

sáb. set. 04, 03:29:00 AM  

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