A Aranha Andrógina de Helsinki
O ônibus está para partir quando olho pela janela e eu vejo... Criatura muito alta de compleição pálida, corpo esguio, pernas longas e muito finas como o de uma aranha que movimenta-se vagarosamente pelos fios de sua teia equilibrando seu corpo lá em cima, tal qual um tripô de apoio à uma câmera. Pernas finas e longas. Sim, como uma aranha. Desliza com a suavidade de um inseto, algo que se esgueiraria pela penumbra da noite deixando uma sombra longa e pavorosa para os poucos que porventura lhe deitassem os olhos! O casaco preto oculta seu corpo delgado. Cabelos castanho-avermelhados. Vira a cabeça para o lado e um calafrio percorre-me a espinha. É simplesmente sinistra a maneira como se move, a vagarosidade dos movimentos bem calculados. É como uma dança. Algo macabro. Segue em frente e de repente é como se a rua e tudo ao seu redor houvessem desaparecido e como fundo existisse apenas uma luz muito, muito forte, como a luz que seria causada pela explosão de uma bomba atômica. A luz intensa vem por trás do ser esguio e seu corpo fino e comprido torna-se apenas um fio, uma linha negra provida de braços e pernas ou talvez apenas filamentos ou algo sugerindo membros, apenas essa linha negra visível por entre os raios fortes dessa luz que nos cega. E sinistra, a criatura continua seguindo em frente, só que o tempo parece ter parado para mim e eu a vejo em câmera lenta. Pele e osso, a figura esguia, a cabeça equilibrando-se no topo do corpo esquálido. Duas chamas projetam-se das cavidades oculares em seu crâneo. Vermelhas como o cabelo. Ou talvez seja um efeito da luz atômica, a luz que por um momento pareceu engolir a cidade e todas as pessoas a seu redor, exceto por ela, a figura bizarra e esguia, a aranha noturna transportada para as seis horas da tarde em pleno centro de Helsinki. Não consigo parar de olhar. Sigo seus movimentos com meus olhos, como que hipnotizada, horrorizada, apavorada e fascinada. Não sei se é um homem ou uma mulher, ou quem saiba um silfo andrógino, um espírito bondozo ou maligno das florestas. Mais alto do que todos os outros que por ele passam, o ser segue em frente, não podendo ocultar seu mistério disconcertante do mundo que o cerca.

3 Comments:
hum... acho que esta é como outra criatura que uma vez cruzou com meu caminho. Lembro dela pois por onde passava as flores murchavam.
hum... isto me lembra outra criatura que uma vez cruzou o meu caminho. lembro dela pois por onde passava as flores murchavam.
Olá Acidus! E seja você também muito mal-vinda às trevas que acercam este blog. As almas perdidas que nos cercam a recebem de braços (e garras) abertos! Não tenha receios em abrir sua alma aqui e mostrar sua podridão interior, até porque isso é um requisito nos Las Decaidras. Este é um espaço justamente para isso, para poesia, contos, filosofar sobre a vida e a morte, escrever sobre coisas sinistras, dividir um com o outro informações, ou apenas falar sobre coisas macabras. Fique à vontade para jogar um pouco do seu veneno aqui! Aproveite que as outras almas penadas estão muito quietas ultimamente (vai ver acharam algum cemitério novo para assombrar).
Postar um comentário
<< Home