segunda-feira, janeiro 31, 2005

O tempo passou...
olho para trás e vejo o longo percurso
olho minhas mãos mas não as vejo, sinto apenas um traço do que com elas projetei
sinto os calos e as marcas da dor
olho nos seus olhos e vejo como está velho
nossos sonhos morreram antes de nós...
não resta mais ninguém pelas ruas
apenas as folhas secas do outono, levadas pelo vento

domingo, janeiro 30, 2005

~~ sessenta e dois anos atrás


Era o vazio, o silêncio,
o cheiro de morte em sepulcros recentes,
as unhas ruídas por ratos,
a dor dos amados, ausentes.

Era o orvalho nas pétalas murchas,
a teia no porta-retrato vazio,
a rachadura no cimento mal-feito,
os lábios formulando o adeus tardio.

Era sessenta e dois anos atrás,
o som do alarme dado,
os aviões e o bombardeio,
o terror nos olhos de um soldado.

Era a dor de pensar no passado,
de ter perdido o amor para a morte,
de desejar também ter morrido
mas sem ter jamais tido tal sorte.

Era o som de seus saltos baixos
ecoando, suave, por cada canto,
a dor nos seus ossos fracos,
os cabelos encobertos pelo manto.

Era o canto de um rouxinol,
isso, e nada mais,
enquanto ela se distanciava
daquele que esqueceria jamais.


~~Laudanum Novica~~

quinta-feira, janeiro 13, 2005

RELATO DE UMA TESTEMUNHA DO FURACÃO DE SÁBADO NA DINAMARCA

Minha amiga finlandesa Johanna, que mora em Copenhagen na Dinamarca, me escreveu hoje contando sobre o furacão que causou ventos fortíssimos, estragos e algumas mortes aqui no norte. Achei a mensagem dela impressionante... algumas partes foram de gelar os ossos. Resolvi então traduzir a mensagem do finlandês para o português e postar aqui, pelo menos a parte contando da tempestade. Me imaginei no lugar deles e fiquei apavorada. O terceiro e quarto parágrafos são os mais impressionantes. Aqui vai:

"Tivemos tempestade no final de semana, mas agora já passou e o sol tem brilhado nos últimos dias e está fazendo +10 graus. Quando vim para o trabalho na manhã de domingo ainda estava chuvoso, choveu forte e o vento estava uns 20 metros por segundo, mas lá fora já dava para andar... só guarda-chuva não deu pra usar, pois o vento o teria quebrado.

Sábado nós tínhamos pensado em ir para o centro, mas antes o Sami decidiu conferir a previsão do tempo na text-tv (um canal com notícias em formato de texto). Ali diziam que um furacão estaria vindo em apenas 2 horas e o vento seria muito forte. Fomos então rapidamente ao supermercado e depois nos trancamos em casa. E a tempestade foi realmente forte. O furacão veio com ventos de até 45 metros por segundo e dava pra sentir. As águas do mar subiram 3 metros e em alguns lugares mais, e por exemplo em Jyllann e no oeste de Sjellann as ruas ficaram com água até a altura dos joelhos (mostraram quando as pessoas tentavam andar nas ruas). E casas também foram vítimas do alagamento. 4 pessoas morreram por causa da tempestade e houve também muitos estragos. Telhados de casas foram levados pelo vento, telhas e calhas voavam, e árvores cairam. Quando vim trabalhar uma árvore enorme tinha caído e a calçada estava coberta por galhos.

E agora sei que quando mostram em filmes no cinema, que durante um furacão as paredes, janelas e telhado tremem e fazem um barulho muito forte, que esse barulho não é inventado. De vez em quando foi realmente de apavorar mesmo, temíamos que as janelas explodissem... e o apartamento inteiro tremia e vibrava muito mesmo (a gente mora num prédio de 3 andares, no andar mais de cima). Às vezes durante a tempestade fazia um barulho estranhíssimo e horripilante como se alguém arrastasse um sofá ou mesa muito pesados bem do nosso lado... Nós tiramos todas as velas e enfeites da beirada da janela para o estrago não ser muito grande em caso o vidro da janela explodisse ou se alguma telha ou pedaço de telhado quebrasse a janela. Sentamos no sofá de forma que se algo acontecesse não fôssemos atingidos por cacos de vidro. Mas felizmente no nosso prédio não ficamos sem energia elétrica e pudemos acompanhar a situação através do noticiário, sempre que algum canal conseguia aparecer, durante a tempestade.

Este furacão foi ainda mais forte do que o do ano 99, cujos ventos quase levaram o Sami (ele foi erguido cerca de um metro acima do solo e jogado violentamente contra uma cerca). Felizmente nada pior aconteceu, mas ele tem lembranças muito ruins daquilo. Ele foi parar no hospital, pois as palmas das duas mãos sofreram cortes fundos e ele teve que levar pontos. Naquele dia 7 pessoas morreram aqui na Dinamarca. Agora as pessoas aprenderam a levar mais a sérios os avisos de tempestade e não saem de casa quando avisam que é extremamente perigoso sair lá fora.

No sábado os trens e ônibus não estavam em circulação, o aeroporto foi fechado e praticamente a cidade toda estava "fechada". O pai do Sami tem um trailler, pois é, e o vento o derrubou! Aqui ainda tem muitas casas e áreas residenciais sem luz até hoje. Na certa deve ser muito frio nelas, sem aquecimento e sem nem menos água quente."
~12/01/2005