A realidade, ao avesso
Este texto eu traduzi da introdução do livro LIFETIDE (Lyall Watson, 1979), um livro sobre ciência, natureza, evolução, o sobrenatural e o natural. É um livro muito interessante que nos faz pensar e questionar a realidade em que vivemos, e a maneira como interpretamos a realidade. Altamente recomendável.
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“A temporada e os jogos de tênis terminaram, mas o jogo havia apenas começado. E quando começou, quando a menina Claudia de 5 anos de idade inventou algo completamente único, ao invés de dirigir o assunto a um padre, o pai dela escreveu diretamente a mim numa mistura de orgulho e pânico que eu achei impossível ignorar.
A família mora em um apartamento de 3 quartos e teto alto, com pouca mobília mas perfumado com o aroma de boa comida. Comendo um prato de peixe e polenta eu tive a chance de observar Claudia, e ela teve tempo para se acostumar comigo. Ela era pequena até mesmo para sua idade, estranhamente quieta para uma criança. Quando suas mãozinhas não estavam ocupadas fazendo algo necessário, então ela as repousava no seu colo ou na mesa. Ela parecia viver através dos seus olhos, que eram enormes, pretos e perturbadoramente sábios. Eles me analisavam, me dissecavam, me estudavam minuciosamente, e depois se voltavam para si, para coisas que realmente importassem.
Depois do jantar eu e o seu pai nos sentamos e conversamos enquanto Claudia folheava uma revista. Então, muito casualmente, o pai abriu um tubo de bolas de tênis que estava numa mesa de canto e rolou uma bola pelo tapete tal que a bola foi parar exatamente sobre a figura que a menina estava examinando. Ela o olhou com um dos seus olhares desconcertantes, deixou a revista de lado e voltou sua atenção à bola de tênis. Ela a segurou de encontro à sua bochecha, afetuosamente, e então balançou a bola na sua mão esquerda enquanto ela a agradava gentilmente com a mão direita como se fosse um animalzinho peludo, um ratinho a ser acordado de sua hibernação. Era uma cena bonitinha, mas não tive tempo de apreciá-la por muito tempo, e fui trazido bruscamente ao presente em terrível incompreensão, quando o ratinho quebrou todas as regras e respondeu.
Em um dado momento, havia uma bola de tênis – a esfera branca e familiar, acarpetada e marcada apenas pelas linhas normais tal como qualquer bola de tênis. E de repente, não havia mais. Houve um som baixo, implosivo, como uma rolha sendo retirada no escuro, e então Claudia segurava na sua mão algo completamente diferente. Um globo liso, escuro e borrachoso com apenas uma sugestão da textura em sua superfície – um tipo de impressão negativa “do-outro-lado-do-espelho”, de uma bola de tênis.
Claudia não parecia surpresa, talvez um pouco satisfeita, enquanto ela dava a bola transformada ao pai, o qual então a deu a mim. Eu não tinha certeza se eu queria ter nada com isso, até que eu percebi o que era aquilo. Era algo que eu jamais havia visto antes, mas que eu reconheci de imediato apesar do ponto de vista nada familiar. Não era uma bola de tênis “careca”, de alguma forma desprovida de seus pelos, mas sim uma bola de tênis invertida, virada de dentro para fora, porém ainda contendo no seu interior um bom volume de ar comprimido sob pressão. Eu a apertei. Eu a joguei no chão e ela saltou de volta. Peguei então uma faca da mesa de jantar e, com um pouco de dificuldade, perfurei a borracha e deixei o ar escapar de dentro. Então eu cortei a bola de lado a lado, e então vi: do lado de dentro, onde não deveria estar, estava a superfície externa da bola com os pelos.
Durante aquela noite, com um pouco de relutância, Claudia fez a mesma coisa novamente, e eu pude levar como um talismã para o hotel uma bola de tênis invertida. Por dois dias deixei a bola sobre a lareira, imóvel porém rindo de mim. Uma esfera, o símbolo clássico de totalidade e ordem, a própria forma da alma, porém transformada pela criança e transfigurada pelo conhecimento de que a ordem havia sido interferida, e de que nada é realmente o que aparenta ser.
Isso ainda me perturba. Eu conheço o suficiente sobre física para saber que não se pode virar uma esfera intacta do lado avesso como uma luva. Não nesta realidade.
Há um ramo da geometria chamado topologia, o qual lida com o modo em que figuras são conectadas, ao invés da sua forma e tamanho. Preocupa-se com os fatores que permanecem não-mudados quando um objeto é submetido a uma deformação contínua ao serem dobrados, esticados ou torcidos. E em análise topológica é possível imaginar uma esfera matemática feita de um conjunto de pontos, que pode ser invertida empurrando-se um lado da bola através do outro. Mas mesmo em tal exercício teórico, se obedecermos a regra básica que a deformação deve ser produzida sem quebrar ou rasgar o material da bola, ainda assim haveria uma ruga em uma superfície da bola.
[...] A maior dificuldade que o método científico nos dá é a presunção implícita de que observadores são externos e independentes dos objetos aos quais dirigem sua atenção. Há boa razão para duvidar de que isso seja realmente verdade. Física quântica é bem clara quanto ao assunto. Querer algo, segundo ela, inevitavelmente transforma a coisa que queremos. Para provar que a bola de tênis realmente foi invertida, você teria que cortá-la e assim destruir sua própria natureza. Então tudo o que lhe restaria seriam duas metades que rapidamente se reverteriam para a conformidade esperada delas; para aquela descrição da realidade que a maioria de nós aprendeu a aceitar como verdade absoluta.”
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LIFETIDE, Lyall Watson, 1979

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