Após a Morte
A voz dela, seu riso, a última coisa que ela disse pairando no ar, como um eco, como se ela estivesse aqui há apenas um minuto atrás, é difícil acreditar que ela se foi. O que fica é esse eco, a sombra dela na cadeira onde ela estivera sentada, como se ainda estivesse lá... E o perfume das suas flores favoritas. Quais eram mesmo suas flores favoritas? No seu jardim cresciam tantas flores, e também temperos, verduras, pés de tomate. O sol escandante ainda brilha sobre o jardim meio descuidado, as flores inquisitivas sentem sua falta. E os outros que por ali passam todo dia não mais olham para as flores, pois eles pensam apenas nela, e na falta que ela faz. Choram por ela. E esse perfume de flores como que dançando no ar quente sob o sol escaldante, subindo em círculos concêntricos e tocando de leve as folhas das árvores, e tocando de leve suas bochechas, e ela sorri, onde ela está. Ela agora pode ver com a clareza que não via, pode dizer o que não dizia, pode ser ela mesma sem a prisão de seu próprio corpo e suas limitações. Ela agora é livre. E assim é a vida, um ciclo que se repete e do qual não se escapa, a morte apenas um elo, uma porta... E após a morte, a vida...

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