Quinta-feira, Junho 30, 2005

Guerra falsa no rádio espalha terror pelos Estados Unidos

Estava delirando pela internet e me deparei com esta excentricidade. Notem bem, algo no espírito americano ainda tem salvação.

No especial do Raditeatro Mercury da véspera do Dia das Bruxas de 1938 - denominado Mercury's Halloween Show -, usando somente sons e silêncios, foi representada uma invasão de marcianos sob a forma de uma cobertura jornalística. Todas as características do radiojornalismo usadas na época – às quais os ouvintes estavam habituados e nas quais acreditavam – se faziam presentes: reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões de especialistas e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emotividade dos envolvidos, inclusive dos pretensos repórteres e comentaristas, davam a impressão de um fato, que estava indo ao ar em edição extraordinária, interrompendo outro programa, o radioteatro previsto. Na realidade, tratava-se do 17º programa da série semanal de adaptações radiofônicas realizadas por Orson Welles e o Radioteatro Mercury (ou Teatro Mercury no Ar) que explorava as técnicas jornalísticas com a ambientação sonora requerida pela linguagem específica do rádio. A CBS calculou na época que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais metade passaram a sintonizá-lo quando já havia começado, perdendo a introdução que informava tratar-se do radioteatro semanal. Pelo menos 1,2 milhão tomaram a dramatização como fato, acreditando que estavam mesmo acompanhando uma reportagem extraordinária. E, desses, meio milhão tiveram certeza de que o perigo era iminente, entrando em pânico e agindo de forma a confirmar os fatos que estavam sendo narrados: sobrecarga de linhas telefônicas interrompendo realmente as comunicações, aglomerações nas ruas, congestionamentos de trânsito provocados por ouvintes apavorados tentando fugir do perigo que lhes parecia real, etc. O medo paralisou três cidades. Pânico ocorreu principalmente em localidades próximas a Nova Jersey, de onde a CBS emitia e Welles situou sua história. Houve fuga em massa e reações desesperadas de moradores de Newark e Nova York (além de Nova Jersey), que sofreram a invasão virtual dos marcianos da história. O conceito de rotatividade de audiência, que hoje faz com que as notícias sejam repetidas à exaustão uma vez que as pessoas estão sempre começando a ouvir o rádio naquele exato momento, ainda não existia na teoria. Só na prática. A recepção era coletiva, dando margem à existência de uma comunidade de ouvintes que, diversamente da recepção intimista, cúmplice e individualizada que caracteriza o rádio atual, facilitava – e até incentivava - os comentários interpessoais, a troca de informações, experiências e emoções. Ainda hoje, a grande maioria dos acontecimentos importantes chegam primeiro pelo rádio, seja direta ou indiretamente: quem avisou, ficou sabendo pelo rádio.

É ou não é fascinante?

2 Comments:

Blogger Hades said...

Panic on the streets of London
Panic on the streets of Birghminhan
I wonder to myself...

... When will u die?
When will u die...
... When will u die?

Dom Jul 03, 02:23:00 PM  
Blogger Laudanum Nociva said...

Sim, eu lembro de ter lido sobre isso anos atrás, achei muito interessante. Deve ter sido divertido! risos

Sáb Jul 16, 07:06:00 AM  

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