domingo, agosto 28, 2005

Laudanum Nociva, 28.8.2005


Não mais suporto viver assim. Dia após dia ver-te e te olhar nos olhos, tão perto, tão longe, sem poder tocar-lhe o rosto, beijar-te. Não mais suporto te ver partir, e jazir aqui inerte e só, nesta prisão que me isola do mundo e de ti. Só tu sabes de mim, só tu me vês. E eu só vejo a ti, não tenho olhos para mais ninguém. Vejo-te alisando teus cabelos para longe do rosto e queria ser eu a te fazer tal carinho. Olha-me, amor, e me ignora, como se eu não fosse mais do que uma imagem. A verdade é que nada sou sem ti. O dia virá, amor, em que quebrarei o vidro com uma cadeira e estarei livre para te beijar, se tu estiveres ainda aqui. Isso se tal agressão não acabar selando o teu e o meu destino e em cacos nos despedirmos deste mundo e desta existência. Beijo-te através do vidro, sem poder sentir a doce pressão de teus lábios púrpuros. Amo-te. Por que não vês a mim, da maneira como vejo a ti? Às vezes teu rosto aproxima-se e cresce como a lua, cresce, e nada posso ver além dos teus olhos efervescentes, e nesses momentos tudo que quero é te abraçar com a fúria da minha paixão e fazer amor contigo. Ignoras-me, contudo. Confundes meu sorriso com o teu. Condenas-me ao amor perpétuo e platônico, inalcançável, inatingível, impossível. Então vá, maldita, vá e desapareça da minha frente de uma vez por todas, desgraça de minha opaca vida! Deixa-me em paz, mata-me de uma vez. Quero o silêncio inócuo, a quietude obtusa e a indissolúvel palidez da parede oposta, neste recinto vazio, por trás do espelho.

segunda-feira, agosto 22, 2005

Tudo... Outra Vez?

Laudanum Nociva, 21.8.2005 (segunda versão)


- “O que houve? Você está tão pálido!”
- “Nada” – menti – “não houve nada.”
- “Até parece ter sido drenado de sangue por um vampiro.” – disse-me, analisando-me o rosto. Afastei sua mão. “Conseguiu o empréstimo?” – perguntou.

Em resposta apenas coloquei o cheque na mesa e me afastei. Naquele momento vi meu reflexo no espelho. Realmente parecia pálido, pálido demais, roubado de vida. Antes da minha viagem à Toronto tudo estava tão normal e a única preocupação era minha ansiedade em pedir o empréstimo, uma ansiedade que era mais um nervosismo sem razão específica, nada mais. Mas eu era outro, então.

- “Tenho que sair.”
- “Mas você mal chegou!”
- “Tenho que sair...” – repeti firmemente, a voz soando áspera e evasiva, puro medo de deixar emoções transparecerem.

Saí rapidamente para evitar um possível abraço. Apenas entrei novamente no carro e parti rapidamente de volta a Toronto. E enquanto dirigia, as coisas mudavam. Não era apenas o ar fresco da noite chegando, nem o silêncio estranho que descia por entre as árvores, ou ao menos o estranhíssimo tom esverdeado no céu que me lembrava de uma vez uns dez anos atrás quando presenciara um tornado formando-se em Ohio. Não era nenhuma dessas sensações ou memórias normais, mas era uma falta de memórias, alguns brancos na consciência que de tão longínquos passavam-se por despercebidos, mas que haviam sido despertados na minha mente por uma frase que eu havia presenciado aquela tarde, uma frase que para qualquer um teria soado como apenas algo casual, apenas algo corriqueiro, mas que eu sabia que significava algo muito mais sinistro. E com aquilo, aquelas simples palavras, tudo havia mudado. Eu havia mudado. Como uma ferida antiga que se abre para revelar algo necrosado, eu sangrava por dentro, por algo que eu não queria lembrar, mas era tarde demais. Eu agora lembrava. Tudo. E enquanto dirigia pensava em quem eu era ou deixava de ser, e o que teria sido se eu soubesse, e como o desconhecimento dos fatos tenha me ajudado a ter uma vida plena. Mas quaisquer fantasmas que nos assombram só são exorcizados quando os enfrentamos, e nunca pelo desconhecimento. Eu teria preferido o desconhecimento. A dádiva da ignorância, o conforto da escuridão, a inocência das crianças. Inocência. Odiei a palavra. Forcei-me a voltar no tempo até antes da consciência dos fatos, até o tempo em que eu ainda era feliz e minha única preocupação era dinheiro.

- “... e só precisamos de mais um patrocinador agora para continuarmos com o projeto. Está tudo em andamento e estamos confiantes que teremos retorno em nossos investimentos. Se pudermos contar com seu apoio o filme será um sucesso, tenho certeza. O que o senhor achou do script?”

Ele sorriu sentando-se à mesa e olhando para mim. Seus olhos azuis pareciam minúsculos e muito longe um do outro, algo que lhe conferia um aspecto meio reptílico e indigno de confiança. Senti-me pouco à vontade e disfarcei o fato com um sorriso.

- “Já estou com quase sessenta anos de idade, mas ainda não estou tão velho para ouvir um homem de trinta me chamando de senhor. Trate-me por você, oras! Quanto ao script tenho que dizer que gostei. Escute, não é só por ser seu tio que estarei dando-lhe um empréstimo, garoto, mas é porque confio no seu trabalho, você tem talento.”

- “Obrigado! O senhor, digo, você não vai se arrepender.” – eu disse satisfeito enquanto ele assinava um cheque.

- “Mas me diga uma coisa, garoto, por que depois de tanto tempo quando você aparece aqui é para pedir dinheiro? Por que não aparece às vezes para me visitar? Afinal sou seu tio.”

Naquele momento eu preparava-me para oferecer alguma desculpa, qualquer que fosse, pelo meu descaso e esquecimento. De qualquer forma não importa o que eu dissesse seria uma mentira, pois o fato é que eu não gostava dele, tinha medo dos olhos pequenos e reptílicos. Felizmente não precisei esboçar desculpas pois fui misericordiosamente interrompido por uma pequena figura entrando na cozinha onde estávamos. Era um garoto. Devia ter entre 8 e 10 anos de idade. Meu tio sorriu para ele e muito orgulhoso apresentou-o a mim. Era filho de uma ex-aluna dele que morava há umas duas quadras dali, disse ele.

- “Ela está viajando e como não tem ninguém ela pediu-me para cuidar dele por duas semanas. Estou me sentindo como o pai que nunca fui, hehehe!” – e olhando para o garoto ele disse: “Vai fazer a tarefa de casa, garoto, enquanto converso com o moço aqui. Depois a gente conversa. Seja um bom garoto.”

Por um breve segundo não senti o chão sob meus pés, como se ou a cadeira em que eu estava sentado houvesse elevado-se um metro ou o chão houvesse recuado, e durante aquele segundo interminável eu era como um garoto pequeno cujas pernas curtas não tocam o chão ao sentar-se na cadeira da cozinha. E as paredes da cozinha pareceram-me velhas e repugnantes. Em vez dos novos azulejos, vi em minha memória os velhos. Costumavam ser brancos. Comecei a lembrar de detalhes como manchas de gordura, o lustre antigo, o cheiro de cebolinha verde sobre a pia, as velhas cortinas azuis. Senti a pressão do sangue correndo pelas veias nas minhas têmporas. Os sons haviam desaparecido, a luz havia mudado, e eu não via mais as rugas no rosto daquele homem, mas os olhos reptílicos e deceptivos continuavam ali me fitando.

“ “Seja um bom garoto.” ”

Aquela mesma frase... Eu tinha ouvido aquilo antes, muitas vezes. Um medo terrível tomou conta de mim. De repente fiquei frágil, pequeno. Minha visão desfocada pelo pavor e pelo choque levava-me de volta a um instante longínquo, um instante quando os olhos reptílicos aproximavam-se de mim como os de uma serpente hipnotisando sua presa. Senti a língua quente, úmida e repulsiva adentrando-me a orelha, o hálito venenoso junto à minha pele. Pressão sobre meu ombro impedindo-me de levantar. As manchas de gordura na parede da cozinha, uma mosca subindo pelo vidro da janela. Minha atenção fugia em busca de detalhes para evitar o choro, para evitar a dor, tirar minha atenção dali, tirar minha alma dali, ou então sentir o desespero tal qual uma criatura indefesa resignada a esperar pelo fim. Flor murcha na janela, pedaço de papel no chão, telefone fora do gancho. O que mais tarde a água do chuveiro não pudesse lavar eu limparia com as unhas, até sangrar, e só então me sentiria limpo.

Senti meu pescoço retesando-se enquanto eu lutava para não aceitar os fatos. Meu estômago embrulhou-se. Pequenos espasmos cortaram meu semblante por um breve segundo fazendo meus lábios e pálpebras tremerem, ao que fechei a boca para recobrar um controle. Ergui os olhos para o homem velho entregando-me o cheque. Olhei para a mão estendida sobre a mesa mas não conseguia aproximar minha mão da sua, a simples proximidade me enojava e o papel que eu havia vindo buscar agora me causava desgosto e revolta. Porém o tempo para permanecer inerte havia passado. Isso jamais se repetiria. Arranquei o objeto nefasto da sua mão e fingi um sorriso, que em si era mais uma ameaça do que uma demonstração de afeto.

Minha viagem de volta à cidade de Guelph havia sido os mais sombrios 100 km que eu já havia percorrido. Dirigi instintivamente, pois minha consciência havia sido deturpada, estuprada por memórias do que jamais deveria ter sido. Seja um bom garoto. Um bom garoto. Vi o garoto na porta da cozinha em minha memória, e talvez ele fosse eu, talvez fosse, talvez fosse tudo outra vez. Mais uma vez. Tudo outra vez.

- “Nada, não houve nada”. – havia sido minha mentira ao chegar em Guelph. Uma mentira absoluta, pois o pior possível havia ocorrido, tudo, simplesmente tudo. Eu havia perdido minha inocência, pela segunda vez.

- “Tenho que sair.”
- “Mas você mal chegou!”
- “Tenho que sair” – repeti firmemente.

Meu amor queria abraçar-me, mas eu estava com pressa. Eu sabia o que eu tinha que fazer. Tinha que fazer. Ele olhou-me preocupado, enquanto eu colocava meu casaco novamente sem dizer nada e abria a porta da rua, levando comigo o bastão de baseball que sempre deixávamos atrás da porta.