domingo, setembro 18, 2005

A Chinesa (um sonho)

Laudanum Nociva, setembro de 2005


Tive um sonho estranho que me deixou com uma sensação surreal que insistiu em me perseguir por horas. Foi tão real e estranho...

No sonho eu era um homem ocidental – que tipo de homem ou de que nacionalidade eu não sei, talvez fosse inglês – e eu estava com uma mulher chinesa, a qual usava roupas tradicionais e possuía um silêncio cheio de um sentimento pesado e profundo, uma agonia ou tristeza que lhe consumia por dentro. Eu estava preocupado e queria ajudá-la. Não lembro o começo do sonho muito bem, apenas que eu estava deitado abraçado à ela, profundamente preocupado com ela, e ela me olhava tristemente nos olhos e dizia algo em chinês que eu não compreendia. Então ela pegou a minha mão, dois dedos de minha mão, colocou-os por baixo de seu vestido e entre suas pernas, inserindo-os em sua vagina, e eu percebi então que ela guardava algo lá, algo que parecia um papel dobrado. Ela queria que eu soubesse. Era algo importante. Ela falou novamente em chinês, e como eu não podia compreender uma voz traduziu explicando que o marido dela havia morrido. Talvez aquilo fosse uma espécie de luto, algo que ela tinha que fazer e que tinha algum significado religioso ou pessoal para ela, como uma promessa que não pode ser rompida. Ela beijou-me muito triste e me deixou sozinho.

Depois daquilo fiquei muito curioso, eu precisava saber o que era aquilo. Perguntei para uma conhecida chinesa que falava inglês, e ela me explicou o que era e também me mostrou um objeto do mesmo tipo, que não havia sido usado mas que era semelhante àquele: era tipo um pergaminho, dobrado, mais ou menos uns cinco centímetros de largura e uns dez de comprimento, textos escritos em chinês e uma cordinha vermelha (ou azul, estranho que não consigo lembrar da cor). Peguei o objeto e o investiguei curiosamente. Minha curiosidade nada mais era do que a minha preocupação com ela. Eu precisava saber.

Naquele momento, a chinesa triste apareceu ao meu lado e me viu com aquilo na mão! Ficou completamente arrasada e desapontada comigo, ferida pela minha curiosidade, a qual ela acreditava ser nada mais do que mera curiosidade. Sentiu-se invadida e traída. Novamente falou apenas em chinês, mas através dos seus olhares e gestos entendi o que ela queria dizer: estava indo embora e nunca mais queria me ver. Joguei-me a seus pés, implorando por perdão. Tentei explicar, implorando e implorando. Ela não havia entendido! Ou talvez eu não houvesse entendido. Eu a havia causado uma mágoa muito grande e ela não poderia me perdoar. Chorei, implorei, ajoelhado a seus pés, mas ela partiu. Permaneci de joelhos, sozinho e chorando compulsivamente. Chorei muito. Muito. Tanto que acordei pela exaustão do choro, e completamente atordoada por tudo aquilo.

sexta-feira, setembro 02, 2005

Pulsante

Laudanum Nociva, 25.8.2005

Esta é uma continuação para Operation Fuck and Kill, um conto o qual escrevi baseado em um sonho.


Eu não estava interessado em nada que ela tivesse a dizer. Ela, contudo, ela não parava de falar. Cocaína tinha este efeito sobre ela. A única razão pela qual trabalhávamos juntos era por ela ser muito boa no que fazia, por saber mentir, seduzir, enganar, roubar sem ser notada, matar sem deixar pistas. Mas não assim, naquele estado. Odiei ter tido que fazer o trabalho por ela. Aquilo me irritara. E o que irritava-me mais ainda era o fato de ela notar o quão irritado eu estava e não dar a menor importância. Lavei minhas mãos cuidadosamente, busquei de dentro dos bolsos das minhas calças de couro os anéis, recolocando-os nos dedos, ao mesmo tempo em que olhava ao redor, conferindo a posição dos objetos.

Saímos para a rua. Andamos rapidamente por becos escuros habitados por ratos e baratas, sentindo o ar quente e úmido da noite. Aproximamo-nos de um bar, mas ela segurou-me o braço. Tudo o que eu queria era apenas poder sentar em algum lugar e relaxar, acender um cigarro e beber, esquecer o que havia ocorrido, observando o movimento dos vivos. Porém ela tinha outros planos. Puxando-me para ela, beijou-me. Tentei afastá-la, irritado como estava. Audácia, a desta garota, pensei. Ela não tinha nenhuma noção de certo ou errado, muito menos culpa ou remorsos. Também não tinha nenhum censo de obrigação ou consideração para com o resto do time e jamais admitira quando estava errada, e esta não seria a vez em que admitiria. Ela não tinha noção. Estava excitada e queria mais sexo. Senti-me contrariado e empurrei-a para longe, não precisava dela. Recebi um tapa como resposta – uma provocação, eu sabia – e respondi na mesma moeda, um tapa por um tapa, fazendo a moça desiquilibrar-se e quase cair, e só então ela ficou irada, raivosa, querendo bater, agredir. Estranho como violência física tem este poder de inverter as coisas e acender desejos, pois logo em seguida passei a desejá-la e beijei-a à força. Ela correspondeu. Mas o que senti não foram pensamentos ou sentimentos positivos, mas uma vontade de vingar minha irritação abusando dela, usando-a sexualmente da forma que ela mesma planejava me usar, só que eu faria dela o que bem eu quisesse, o que EU quisesse. Enlaçamo-mos num abraço furioso espremendo nossos corpos um contra o outro.

“Ei, ei, espera” – disse ela empurrando-me suavemente e procurando por algo no bolso de seu casaco. Ergueu então a palma branca revelando o que ela continha, e eram dois comprimidos. “Toma um! Um para você e um para mim. Vamos, toma um!” – insistiu.

Eu não estava a fim de drogas, mas ela usou de uma voz rouca e sedutora e de argumentos que me convencessem. Disse que nós explodiríamos no momento do orgasmo, que não havia nada melhor no mundo, que seria o melhor sexo que já fiz. Insistiu. Insistiu. Concordei. Tomei o comprimido. Continuamos nos beijando e deslizando as mãos pelos corpos um do outro. Minhas mãos tentavam decidir-se entre o decote do vestido ou o trazeiro dela. Comecei a acariciá-la entre suas pernas, senti meus dedos ficarem molhados. Mas então ela me fez parar:

“Espera! Pára! Aqui não. Vamos pra outro lugar. Vamos deixar a coisa mais interessante. Você quer um orgasmo? Pois vou te dar o orgasmo do século...”

Segui-a por ruas estreitas e becos úmidos e escuros. Passamos por portões enferrujados, bueiros abertos. Estranhas criaturas moviam-se na escuridão, e a escuridão era viva, uma névoa que subia e descia, pulsando acima do asfalto molhado e ocultando segredos, muitos segredos. Postes de luz voltavam-se em nossa direção, vigiando-nos, e rostos flutuavam através de janelas de uma fábrica abandonada, como fantasmas entre os vivos. Mas quem eram os vivos? Nós, e uma fileira de gatos pretos empuleirados sobre uma cerca de madeira podre e caindo aos pedaços, empuleirados como estranhas corujas cujos olhos amarelos moviam-se uníssonos, atentos a cada movimento nosso. Nós dois éramos como uma minúscula procissão secreta assistida por essas estranhas criaturas. Estávamos invadindo a sua noite, o seu espaço.

Ela andava mais rápido agora, seus passos sempre muito decididos, e puxava minha mão firmemente. Meus pés moviam-se atrás dela e independentemente da minha própria vontade. Passei a assistir-me andando atrás dela. Eu ia aonde ela me levava. Tudo e todos nos observavam, onde ninguém havia. Os cabelos loiros dela deixavam rastros dourados no espaço e misturavam-se ao ar que eu respirava. Imaginei meus pulmões cheios de ouro, ou cobras douradas. Tive medo de me sufocar. E se as cobras fossem venenosas? Mas não havia tempo para aquilo, ela andava muito depressa e eu tinha que acompanhar, cuidando para não tropeçar, e eu tropeçava com frequência em coisas que não podia ver. E passava através de obstáculos que bloqueavam nosso caminho. Temi que se ela soltasse minha mão eu me perderia, talvez caísse e não pudesse me levantar. Senti-me muito, muito excitado. Ela voava como uma deusa, e eu voava com ela. Queria, queria aquela mulher. Desejava, amava aquela mulher. Seu perfume inebriante era como uma droga, e eu queria mais. Imaginei e cheguei a acreditar que podia ouvir os pensamentos dela, e ela me queria, prometia me amar para sempre. Não, não era isso. Era do orgasmo do século que ela falava, um orgasmo fantástico era o que ela prometia. Com a elegância de uma fada e a rapidez de uma bruxa ela movia-se, e eu tentava acompanhar. As paredes nos ouviam.

Mas logo a selva de pedra foi ficando para trás, o cheiro da noite misturou-se ao cheiro de mato, e um rangido metálico revelou o que atrás de uma cerca havia, e era um jardim de pedregulhos, e os pedregulhos envolviam e protegiam um caminho infinito de metal. Os trilhos de trem. Eu soube então onde estávamos. Paramos sobre os trilhos, os olhos dela brilhando com a luz da lua, dentes mostrando-se em um sorriso aberto pelos lábios vermelhos. Sua voz ecoava no ar fazendo gotas de orvalho noturno perderem seu equilíbrio e caírem das pontas das folhas. Achei tudo muito engraçado e fascinante, e ri. Beijamo-nos. O abraço ficou mais forte. Aos poucos nos desvincilhamos de nossos casacos. Arranquei a calcinha dela. Ri. Mas então a voz sedutora soou de novo:

“Ei, espera! Vamos fazer isso direito! Eu te prometi o maior orgasmo do mundo. Então vamos fazer direito!” – e abaixando-se tirou algo de um bolso do casaco. Algemas. O que tinha em mente essa vadia?

E então rindo, sorrindo, beijando e seduzindo, ela fez-me sentar entre os trilhos e sentou no meu colo. Abriu minhas calças. Empurrou-me suavemente forçando-me a deitar de costas e eu permiti. E ainda permiti, indo contra meu melhor juízo e meu senso de preservação, que ela algemasse uma das minhas mãos à uma das largas argolas de ferro que prendiam os trilhos às barras pesadas perpendiculares de concreto, semi-enterradas nas pedras britas. Quando eu estava devidamente algemado, ela começou a me chupar. Fechei os olhos.

De vez em quando eu abria os olhos e via a lua. Via a silhueta escura de árvores altas contra a escuridão do céu. Via coisas passar voando. Sentia coisas indescritíveis. E ela continuava, indescritível. Indescritível, quando meu corpo começou a vibrar com o que ela fazia. Eu vibrava e minhas costas doíam contra as pedras britas e as barras de concreto sob mim, eu vibrava e ascendia aos céus, talvez flutuasse se não fosse pela algema. Os trilhos que nos envolviam começaram a vibrar com a nossa vibração e de repente as árvores cuja silhueta escura eu vira antes acenderam-se. Acenderam-se. E a luz não vinha da lua, mas vinha da terra, de nós. Não. Não de nós. Um som ergueu minha cabeça e eu vi a fonte da luz e das vibrações. O trem.

Nunca mais a vi. Quando a escuridão, o medo e o som estarrecedor passaram ergui meus braços de encontro à testa e percebi que estava vivo. A algema havia quebrado-se com a vibração. Mas eu estava vivo, inteiro. Ela desapareceu, arrancada de cima de mim pelo monstro gigantesco, talvez agarrada pelo cinto que usava sobre o vestido. Nunca mais a vi. Voltei estarrecido, andando pela longa rua escura ao lado da fábrica abandonada, desta vez sem rostos flutuantes nem gatos pretos. Apenas a névoa pulsante, esta sim continuava lá, encobrindo a rua molhada, encobrindo a mim, ocultando muitos, muitos segredos.