domingo, julho 24, 2005

Últimos e primeiros

baseado em uma lenda antiga
Laudanum Nociva, 24.7.2005



Bruma sulfúrica que emerge por entre as pedras, suavemente recebida e tragada pelo vapor de água e gás carbônico que paira no ar, como que dançando às margens das águas quentes, formando uma neblina ao mesmo tempo grossa e leve. A névoa envolve a figura feminina, imóvel junto à nascente. Envolve, mas sem encobri-la. Seu perfil embaçado e distorcido permanece como uma aparição em preto e branco, rasgando o tom amarelo do céu. Seu rosto está plácido. Ela é a última, e a primeira. Sua missão está cumprida. E agora, indiferente, sem emoções, ela permanece ali, imóvel.

E do outro lado do mundo, ele morre, apenas para renascer e morrer novamente, sua carne devorada pelos corvos insaciáveis, seus olhos picados, seu sangue coagulado e seco sob o calor escaldante do sol. E com os primeiros raios de sol da manhã, sua carne rejuvenece mais uma vez, enquanto os corvos aguardam.

Ela é a consequência dos atos dele, mas não sua culpa. E agora a terra está deserta, infértil, vazia. A caixa havia sido aberta. Porém um som metálico corta o ar, um som rítmico e harmônico, como se música viesse de algum lugar longínquo. Os corvos vôam para longe, deixando-o só. Ela vira o rosto em direção à música e vê, no céu já escurecido pelo anoitecer, vagos feixes de luz movendo-se e expandindo-se, como cortinas azuis e verdes. A aurora magnética põe uma lágrima em seus olhos ressecados. Ela é a última. Aproxima-se da água morna, tocando-a com os pés descalços e entrando na nascente. Senta-se e deixa seu corpo submergir até o peito, dando a luz ao que ela carrega no ventre. Ela é a primeira.

sábado, julho 16, 2005

"Prometheus"

Laudanum Nociva, 16.7.2005


O vento levantava suavemente a cortina branca, e através do tecido quase transparente via as sombras dos arbustos banhados pela luz azulada da lua. O ar úmido e salgado que vinha do mar beijava-lhe a testa, enquanto aguardava, ouvidos atentos a qualquer ruído. Por trás da cortina, a porta aberta. Um convite. Logo viria. Como todas as noites, logo viria. E foram apenas alguns momentos antes do perfil familiar aparecer no jardim noturno. Seus lábios abriram-se num sorriso e em seguida relaxaram-se deixando a boca aberta, um gemido quase escapando, a língua tocando os dentes, desejo. E vai de encontro à visita tão esperada, beijos febris de paixão, pressa para consumar o que já lhe doía por dentro.

Era sempre aquele medo, todo dia, medo de que a noite chegasse sem a visita. E porém a certeza do encontro, pois toda noite só precisava deixar a porta aberta e logo sua companhia chegava tal qual Prometheus, trazendo-lhe as chamas do Olimpo. Beijava-lhe a boca ardente e abraçava seu corpo fortemente junto ao seu, sorrindo, e juntos gemiam, riam, se amavam.

E foi por muito tempo feliz assim, vivendo à espera da noite chegar. Jamais querendo estar em outro lugar, pois tinha que estar em seu quarto, à espera, até o ar da noite trazer-lhe sua visita noturna.

Mas aos poucos a comida perdeu o sabor, as pessoas perderam seus rostos e os livros perderam suas linhas. Nem mesmo o sol não era mais morno, pois tudo o que podia pensar era em seu Prometheus trazendo-lhe as chamas do Olimpo. Não mais lhe bastavam os encontros noturnos. Queria-o para si, a todo instante. E foi assim que decidiu aprisionar Prometheus.

Quando a noite chegou, deixou sua visita entrar como sempre, mas trancou a porta. Não mais a abriria, disse, queria a chama só para si, queria sob os olhos de tudo e de todos, queria de noite, de manhã, de dia. Queria ao nascer e ao pôr do sol. Queria na juventude e na velhice. Queria que estivesse ali ao acordar e jamais fosse embora. Queria.

Mas isso não foi o que seu Prometheus queria.

E os deuses criariam o pássaro, dariam-lhe asas, mas jamais o ensinariam a voar? – disse-lhe. E impedindo suas investidas desesperadas, segurando-lhe pelos ombros, deixou-lhe saber que sua chama não era exclusiva e que aquecia os quartos de outros, e que algumas lendas não tem o poder de serem mais do que lendas. E que amor verdadeiro lhe viria um dia, mas não agora. E assim foi-se embora.

A porta continuou aberta todas as noites, mas agora só a brisa da noite lhe entrava quarto adentro. Seu quarto ficou escuro sem a chama. E amor verdadeiro jamais veio-lhe, e jamais viria, pois assim como sabia, amor verdadeiro tinha sido aquele que ele tinha perdido.