Últimos e primeiros
baseado em uma lenda antiga
Laudanum Nociva, 24.7.2005
Bruma sulfúrica que emerge por entre as pedras, suavemente recebida e tragada pelo vapor de água e gás carbônico que paira no ar, como que dançando às margens das águas quentes, formando uma neblina ao mesmo tempo grossa e leve. A névoa envolve a figura feminina, imóvel junto à nascente. Envolve, mas sem encobri-la. Seu perfil embaçado e distorcido permanece como uma aparição em preto e branco, rasgando o tom amarelo do céu. Seu rosto está plácido. Ela é a última, e a primeira. Sua missão está cumprida. E agora, indiferente, sem emoções, ela permanece ali, imóvel.
E do outro lado do mundo, ele morre, apenas para renascer e morrer novamente, sua carne devorada pelos corvos insaciáveis, seus olhos picados, seu sangue coagulado e seco sob o calor escaldante do sol. E com os primeiros raios de sol da manhã, sua carne rejuvenece mais uma vez, enquanto os corvos aguardam.
Ela é a consequência dos atos dele, mas não sua culpa. E agora a terra está deserta, infértil, vazia. A caixa havia sido aberta. Porém um som metálico corta o ar, um som rítmico e harmônico, como se música viesse de algum lugar longínquo. Os corvos vôam para longe, deixando-o só. Ela vira o rosto em direção à música e vê, no céu já escurecido pelo anoitecer, vagos feixes de luz movendo-se e expandindo-se, como cortinas azuis e verdes. A aurora magnética põe uma lágrima em seus olhos ressecados. Ela é a última. Aproxima-se da água morna, tocando-a com os pés descalços e entrando na nascente. Senta-se e deixa seu corpo submergir até o peito, dando a luz ao que ela carrega no ventre. Ela é a primeira.
